Fernando Pessoa e os heterônimos em frases: Caeiro, Reis, Campos e Bernardo Soares
Quem eram Caeiro, Reis, Campos e Bernardo Soares, como reconhecer cada um e quais frases famosas de "Fernando Pessoa" na verdade pertencem a um heterônimo.

Neste texto (8 partes)
Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888 e morreu na mesma cidade em 30 de novembro de 1935. Em vida publicou pouco: um livro de poemas em português, Mensagem, e textos espalhados por revistas. Deixou uma arca com milhares de papéis, de onde saiu quase tudo o que se lê dele hoje.
O que faz Pessoa diferente de qualquer outro poeta é que ele não escreveu só como Pessoa. Criou dezenas de autores, com nome, data de nascimento, profissão, opiniões e jeito de escrever, e deixou que eles discordassem entre si. Chamou-os de heterônimos, para separá-los de pseudônimos, que são só nomes falsos. Numa carta ao crítico Adolfo Casais Monteiro, de 13 de janeiro de 1935, ele conta como Caeiro, Reis e Campos surgiram e diz que, entre todos eles, ele mesmo era "o menos que ali houve".
Para quem cita, isso tem uma consequência prática: a mesma frase pode estar certa como "de Fernando Pessoa" e mais precisa como "de Álvaro de Campos". Abaixo, cada voz com as frases do acervo que conseguimos identificar.
Fernando Pessoa ele mesmo (o ortônimo)
Quando assina com o próprio nome, Pessoa escreve poemas de métrica tradicional, muitas vezes sobre a distância entre sentir e pensar, e os poemas patrióticos e místicos de Mensagem (1934).
O poeta é um fingidor.
O primeiro verso de "Autopsicografia". O poema continua dizendo que o poeta finge tão completamente que chega a fingir a dor que deveras sente. É talvez a chave de toda a obra.
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
De "Mar português", em Mensagem. No original o verso diz "se a alma não é pequena"; a versão com "quando" é a que mais circula.
Viver não é necessário. Necessário é criar.
Pessoa adapta o lema dos antigos navegadores, "navegar é preciso, viver não é preciso", trocando navegar por criar.
Toda beleza é um sonho, inda que exista. Porque a beleza é sempre mais do que é.
Com fonte conferida no acervo: poema de 22 de abril de 1934.
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Alberto Caeiro, o mestre
Caeiro é o poeta do campo, que quase não estudou e só confia no que vê. Pessoa dizia que ele era o mestre de todos os outros, inclusive do próprio Pessoa. A obra principal é O guardador de rebanhos, e o tom é de simplicidade radical: as coisas são o que são, e pensar demais estraga a vista. Um verso famoso dele é "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia".
Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo...
De O guardador de rebanhos. Caeiro se sente nascer de novo a cada momento porque olha o mundo sem ideias prontas.
O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma.
Quem fala aqui é Álvaro de Campos, nas notas que escreveu sobre o "mestre Caeiro". É um bom exemplo de como os heterônimos conversam entre si.
Ricardo Reis, o clássico
Ricardo Reis é médico, nascido no Porto, educado em colégio de jesuítas e admirador dos poetas latinos, em especial Horácio. Escreve odes curtas, de vocabulário erudito, que aconselham calma diante da morte e do destino: aproveitar o momento sem se agitar. Muitas são dirigidas a uma Lídia que talvez nunca tenha existido. Um dos versos mais citados é "Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui".
O acervo do site ainda não tem frases identificadas como de Ricardo Reis. Se você souber de uma ode dele creditada só a Pessoa, a página da frase tem a bandeira de reportar erro. José Saramago gostou tanto do personagem que escreveu um romance sobre os últimos meses dele, O ano da morte de Ricardo Reis.
Álvaro de Campos, o engenheiro
Campos é o heterônimo mais barulhento. Engenheiro naval formado em Glasgow, viajou ao Oriente e passou por fases bem diferentes: a euforia com as máquinas da "Ode triunfal" e, depois, o cansaço e a ironia de "Tabacaria" (1928). Muitas das frases mais compartilhadas de "Fernando Pessoa" são dele.
Tenho em mim todos os sonhos do mundo.
No acervo está com o nome de Fernando Pessoa, mas o verso é de "Tabacaria", de Álvaro de Campos. Vem logo depois de "Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada.", o que muda bastante o sentido.
Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Também de "Tabacaria". Campos fala com uma menina que come chocolates e inveja a simplicidade dela.
Ser completo como uma máquina!
Da "Ode triunfal", a fase em que Campos celebra as fábricas e as máquinas.
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.
O engenheiro defendendo que matemática também é beleza.
Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Campos no seu modo mais leve: a alegria de faltar a um compromisso.
Bernardo Soares, o guarda-livros
Bernardo Soares é chamado de semi-heterônimo porque, segundo Pessoa, era ele mesmo com algumas partes a menos. Ajudante de guarda-livros num escritório da Baixa de Lisboa, escreve os fragmentos em prosa do Livro do desassossego, publicado só em 1982, quase 50 anos depois da morte de Pessoa. É de onde vem boa parte das frases de Pessoa em prosa que circulam na internet.
Para viajar basta existir.
No livro, a frase vem depois de uma pergunta: "Viajar?". Soares quase não sai de Lisboa, e a viagem que importa para ele é a de dentro.
Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.
Trecho que costuma ser identificado como do Livro do desassossego. Ler como quem é guiado por outra mão.
Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, por que não sonhar os meus próprios sonhos?
Soares desconfiando da própria leitura: se é para sonhar, melhor sonhar os sonhos próprios.
A maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
Um dos fragmentos mais citados. Resume a inversão que atravessa toda a obra: sentir com o pensamento.
Assim como lavamos o corpo devíamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa.
Os outros não são para nós mais que paisagem, e, quase sempre, paisagem invisível de rua desconhecida.
Frases de Pessoa sem heterônimo identificado
Boa parte das frases do acervo está creditada a Fernando Pessoa sem indicação de livro ou de heterônimo. Estas são algumas das mais vistas; podem ser de qualquer uma das vozes.
A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.
Falar é ter demasiada consideração pelos outros. Pela boca morrem o peixe e Oscar Wilde.
Brincadeira com o ditado "pela boca morre o peixe", com Oscar Wilde no lugar do peixe.
Gostava de estar no campo para poder gostar de estar na cidade.
Como citar Pessoa sem errar
Se souber o poema, cite o heterônimo. "Álvaro de Campos, Tabacaria" é mais preciso do que "Fernando Pessoa", e as duas formas estão certas.
Desconfie do tom de autoajuda. Pessoa é irônico, cético e, muitas vezes, triste. Texto motivacional longo com o nome dele dificilmente é dele.
Prosa curta e reflexiva costuma ser do Livro do desassossego. Vale procurar o trecho antes de usar.
Cuidado com versões "melhoradas". Como no verso de Mensagem, a frase que circula às vezes troca uma palavra do original.
Perguntas frequentes
Quantos heterônimos Fernando Pessoa criou?
Os estudiosos contam dezenas de nomes, alguns com poucos textos. Os principais são três, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, além do semi-heterônimo Bernardo Soares.
Qual a diferença entre heterônimo e pseudônimo?
Pseudônimo é só um nome falso para o mesmo autor. Heterônimo, para Pessoa, é outro autor, com vida, ideias e estilo próprios.
"Tenho em mim todos os sonhos do mundo" é de Fernando Pessoa?
É de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa, no poema "Tabacaria". Por isso também é correto dizer que é de Pessoa, desde que se saiba que fala o Campos.
O que é o Livro do desassossego?
É um conjunto de fragmentos em prosa atribuídos a Bernardo Soares, que Pessoa deixou inacabado. Foi publicado pela primeira vez em 1982.
Veja todas as frases na página de Fernando Pessoa e na de Álvaro de Campos. Quem gosta de Pessoa costuma ler também José Saramago e Mia Couto. Para entender como o site marca a autoria, leia como saber se uma frase é mesmo do autor; as frases filosóficas e as frases para refletir reúnem outros pensadores.






































